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Publicado em: 2 de junho de 2021
Categorias: Formação

A 1ª pandemia da era digital revela o abismo social no Brasil

Integrando o processo de formação dos educadores/as que estão atuando em 40 oficinas virtuais nos estados brasileiros, o CEAP promoveu um encontro online com Valcler Rangel Fernandes, médico sanitarista da Fiocruz, com extensa trajetória na saúde pública e responsável pelas relações institucionais da Fundação. O objetivo foi tratar dos aspectos da pandemia da Covid-19 na visão de especialistas, abordando questões sociais e econômicas.

A partir de dados recentes, Valcler problematizou sobre o cenário mundial e brasileiro da Covid-19 a partir do conceito da sindemia.  Inspirado nas reflexões do antropólogo e médico americano Merrill Singer, a pandemia da Covid-19 deve ser compreendida como sindemia pelo agravamento das condições de saúde devido à fatores sociais e ambientais tornando algumas populações e pessoas mais vulneráveis a ela.

Valcler Fernandes apresentou dados e a questão da crise humanitária por trás da Covid-19 aos educadores/as do CEAP

 

Para Valcler, a pandemia está se mostrando cada vez mais complexa e a atuação dos Conselhos de Saúde na fiscalização e nas discussões que ultrapassam a questão da Covid para fatores sociais e econômicos é fundamental. “Sem dúvida o trabalho dos Conselhos é de extrema importância neste momento especialmente, desde o acompanhamento e controle dos Planos Plurianuais (PPAs), que tratam da questão econômica das comunidades, ligada diretamente à manutenção do direito à saúde, até mesmo das questões que perpassam a doença, como fatores sociais das comunidades”.

Declaração da Comissão Lancet COVID-19

O sanitarista falou sobre a Declaração da Comissão Lancet COVID-19, apresentada durante a 75ª sessão da Assembleia Geral da ONU. O documento trata aspectos técnicos da Covid-19, mas vai muito além disso. Revela que há uma recessão comparável à década de 30, com remessas reduzidas de alimentos e matérias-primas, fome, pobreza extrema, e tudo isso em meio à primeira pandemia da era digital, com reflexos no mundo do trabalho. A desigualdade digital ampliou a desigualdade sócio econômica, pois muitos não terão condições de trabalhar em formato home-office. “Os empregos mais bem pagos mudaram para uma versão online e em outro extremo, os trabalhadores com salários mais baixos estão sendo dispensados e serão dispensados e é importante que as medidas de transição sejam apoiadas pelo estado, pois não há filantropia nisso.

 

 

 

 

 

Impacto econômico

O documento também traçou o impacto econômico da doença que escancarou o abismo social brasileiro. “Pobreza e desigualdade atuam sinergicamente na pandemia. A Covid-19 se coloca como uma crise da sustentabilidade, ela faz parte deste contexto, se manifesta politicamente, é uma questão biossocial. As doenças são manifestações de um modelo político e sabemos que, se concentrarmos as ações somente contra o vírus nós fracassaremos, a vacina por si só não é suficiente, precisamos sim reduzir ou eliminar a desigualdade. A Covid-19 é uma das doenças que são zoonoses - resultantes da transmissão de patógenos de populações animais para humanos. Tudo origina das populações e está ligado diretamente à falta de saneamento, educação, saúde, moradia. Por isso uma abordagem sindêmica abrange informações biológicas e sociais e são importantes para a política de saúde a ser adotada”.

 

 

 

 

Muito mais do que um vírus

Além da desigualdade social, os dados levantados no documento demonstraram que muito mais do que um vírus, a Covid-19 é conhecida por causar uma série de doenças crônicas e deficiências, onde existe duas categorias e doenças que interagem com populações específicas: infecção com síndrome respiratória aguda grave e uma série de doenças não transmissíveis. Há consequências cardiovasculares, neurológicas, perda de olfato, paladar, lesões auditivas e oculares, além da saúde mental, com níveis elevados de depressão e ansiedade e distúrbios cognitivos. “O aparecimento de doenças a partir de casos médios de Covid-19 demonstrou ser esta uma patologia mais complexa, passando de alta letalidade para uma doença respiratória. Pode haver inclusive afetação do sistema imunológico pela doença”.

Entre os dados, o comportamento da doença em internações a partir de variantes de preocupação. Um exemplo são os pacientes hipoxêmicos - que já chegam em situação muito grave no hospital – ligado com sindemia e não com o fenômeno biológico, mas com exposição.

Vacina e prevenção

Para Valcler, os especialistas sabem o que precisa ser feito, mas não sabem sobre a Covid-19 e nem se a vacina protege contra as variantes, por exemplo. “O que sabemos é que precisa fazer distanciamento, testar e vacinar, mas nem isto está sendo feito da forma ideal. Por isso a necessidade de uma orientação sindêmica diferente para a medicina com abordagem integrada. Compreendemos que dar esperança não é dizer para as pessoas que existe uma solução mágica como a vacina. Abordar a sindemia nos convida às questões como sublinhar suas origens sociais. Reduzir a fila de UTI não basta e não há garantias, ainda mais com o baixo nível de vacinação, a desigualdade aumentando, a atenção primária não sendo feita, a testagem ampla sem estar sendo executada. Teremos que contar com a sorte”, concluiu.

 

 

 

 

 

Análise de 880 mil internações de março de 2020 a março de 2021:

41% mortalidade hospitalar

63% mortalidade em UTI

86% mortalidade intubados

99% mais pacientes em suporte ventilatório

 

*dados divulgados nas imagens foram apresentados durante a atividade.

ASCOM/CEAP

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