Entre vínculos, escuta e mobilização: a experiência do PARTICIPA+ no Mato Grosso do Sul

A experiência do Projeto PARTICIPA+ no Mato Grosso do Sul, em 2025, teve uma inovação importante a partir da atuação do educador popular Pedro Cruz. Escolhido para ser o facilitador do projeto no estado neste ciclo, ele conduziu as quatro oficinas de Formação para Controle Social no SUS que, mais do que cumprir uma agenda formativa, buscaram dialogar profundamente com a realidade local e provocar movimentos concretos no controle social do Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo Pedro, um dos principais diferenciais da experiência foi a construção de um vínculo sólido com a Comissão de Educação Permanente do Conselho Estadual de Saúde de Mato Grosso do Sul. Esse entrosamento possibilitou um alinhamento metodológico cuidadoso, planejamento prévio das oficinas e avaliações contínuas a cada etapa do processo. “Foi uma estratégia muito saudável. Criamos uma parceria real, que dinamizou as oficinas e me ajudou a compreender melhor os desafios singulares daquele território”, avalia.

A postura colaborativa e inquieta da comissão foi, para o educador, um dos aspectos mais marcantes. Havia uma preocupação explícita em qualificar os planos de multiplicação para que não se restringissem a um exercício formal, mas se desdobrassem em ações concretas nos territórios, já que essa é uma das propostas fundamentais do PARTICIPA+. Essa inquietação, segundo Pedro, dialoga com experiências anteriores no estado, nas quais muitas propostas não alcançaram efetividade prática, motivando, inclusive, a construção de um projeto piloto mais conectado à realidade local.

No que diz respeito ao impacto das oficinas, Pedro define o PARTICIPA+ como um projeto que “coloca o controle social em movimento”. Ao chegar a municípios do interior e regiões afastadas dos grandes centros, as atividades provocam reflexões, questionamentos e deslocamentos em contextos onde, muitas vezes, os espaços de participação estavam marcados pela inércia ou pelo desencanto. “O projeto mexe com as pessoas, desperta curiosidades, provoca o desejo de voltar ao território disposto a remexer a realidade local”, afirma.

Esse movimento se expressou, de forma especial, nos relatos de participantes que chegaram às oficinas desacreditados ou até desencantados com o SUS e saíram encantados. Pedro lembra de situações em que educandos, a partir do diálogo e da problematização coletiva, conseguiram ressignificar experiências pessoais de frustração com o sistema de saúde, compreendendo que as falhas vividas não anulam o SUS enquanto política pública, mas evidenciam a importância do controle social para cobrar e transformar a gestão.

Outro elemento central das oficinas foi a composição paritária das turmas, reunindo conselheiras e conselheiros de saúde ao lado de lideranças sociais. Para o educador, essa diversidade enriquece profundamente o processo formativo. Enquanto conselheiros compartilham os desafios concretos da atuação institucional, da burocracia e da relação com a gestão, as lideranças dos movimentos sociais trazem a perspectiva da luta cotidiana pelo direito à saúde. “Um aprende com o outro. Quando há uma presença forte dos movimentos sociais, as oficinas ganham ainda mais potência”, destaca.

Apesar das potencialidades, Pedro reconhece desafios importantes. Entre eles, a dificuldade de muitos participantes em dar continuidade às atividades de multiplicação após as oficinas, devido às agendas sobrecarregadas e às exigências da realidade local. Outro ponto sensível é a grande demanda de fala e desabafo que emerge nos encontros. Para ele, isso revela o quanto os próprios espaços institucionais de participação nem sempre acolhem as subjetividades e vivências das pessoas, tornando as oficinas um espaço raro de escuta e expressão — ao mesmo tempo potente e desafiador diante do tempo limitado de dois dias.

Ainda assim, Pedro vê no PARTICIPA+ uma força estratégica fundamental: a capacidade de criar e fortalecer redes. Redes locais, estaduais e nacionais, que conectam educandos, educadores, conselheiros e lideranças em torno da defesa do SUS e da participação social. É um projeto que coloca pessoas em comunicação, gera identificação e abre possibilidades de colaboração contínua”, conclui.

A experiência no Mato Grosso do Sul, segundo o educador, reafirma a importância da educação popular como ferramenta viva de fortalecimento do SUS — não apenas como formação técnica, mas como processo político, afetivo e mobilizador, capaz de reacender esperanças e impulsionar transformações nos territórios.

PARTICIPA+

O Projeto PARTICIPA+ é uma iniciativa do Conselho Nacional de Saúde (CNS), em parceria com o Centro de Educação e Assessoramento Popular (CEAP), com apoio da OPAS/OMS no Brasil e dos Conselhos Estaduais de Saúde, Comissões Estaduais de Educação Permanente e do Fórum DH Saúde. Em 2025, foram realizadas 110 oficinas em todos os estados brasileiros e 92 Rodas de Conversa virtuais, além de seminários, pesquisas em Grupos de Trabalho e ações formativas.

Oficinas do PARTICIPA+ no Mato Grosso do Sul em 2025:

  • Nova Andradina –  18 e 19/09/2025
  • Ponta Porã – 23 e 24/10/2025
  • Aquidauana – 24 e 25/11/2025
  • Campo Grande – 03 e 04/12/2025

Fotos: Diego Ecker e Pedro Cruz/CEAP
Reportagem: Jéssica França/CEAP

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