
A noite da sexta-feira, 21 de março, foi marcada por um importante espaço de escuta, troca e construção coletiva durante mais uma edição das Rodas de Conversa do Projeto PARTICIPA+. A primeira roda deste ano teve como tema “Saúde das Mulheres ao longo do curso de vida: encontros intergeracionais para o fortalecimento dos direitos, das vozes e das políticas públicas no SUS”.
A atividade foi proposta pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS), por meio da Comissão Intersetorial de Atenção à Saúde nos Ciclos de Vida (CIASCV) e da Comissão Intersetorial de Saúde da Mulher (Cismu), destacando a importância de compreender a saúde das mulheres em todas as fases da vida, desde a infância até o envelhecimento.
A mediação foi conduzida por Walquíria Alves, integrante da CIASCV/CNS, que destacou a importância da roda para as comissões intersetoriais, especialmente pela sua transversalidade. “Porque ser mulher, ter o nosso ciclo de vida, em algum momento a gente se cruza para falar sobre o fato de ser mulher”, pontuou.
Entre as convidadas, esteve Rosa Anacleto, conselheira do CNS, atuante na Cismu e na Comissão Intersetorial de Educação Permanente para o Controle Social do SUS (CIEPCSS/CNS), além de representante da União de Negras e Negros pela Igualdade (UNEGRO). “Saúde é bem viver, mas não há bem viver sem memória, então a gente saúda as mulheres que nos antecederam, me refiro ao ano de 1984, das que romperam o silêncio para dizer que não éramos apenas mães, éramos sujeitas integrais. Se falamos hoje da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher é porque houve uma luta antes de nós. Esse não é só um espaço tão somente de exposição técnica, é um quilombo de voz ativa que é importantíssimo para entendermos os desafios da saúde da mulher em todos os ciclos da sua vida, os enfrentamentos, os posicionamentos da sociedade para com nós mulheres”, disse.
Rosa também destacou que o mês de março, “Mês da Mulher”, é um período de reflexão e luta. “Precisamos perguntar qual é a cor dessa saúde e o diagnóstico é brutal, o racismo estrutural, o patriarcado ainda escolhe quem vive e quem morre do Brasil. A dor que tem cor, por que? como aceitar que em pleno 2021, a mortalidade materna entre mulheres pretas chegou a 194 óbitos, enquanto a média nacional é de 50%. O câncer de colo de útero, uma doença evitável, mata majoritariamente nossas irmãs pretas e pardas. A geografia da morte, né? Por que uma mulher no norte tem quase o dobro do risco de morrer no parto do que uma mulher do sul? Isso não é fatalidade, é falha de política pública, mas caminhamos para superar”, disse Rosa.
Ela também chamou atenção para os números alarmantes da maternidade na adolescência. “Em 2023, quase 14 mil meninas de até 14 anos foram mães. Isso não é estatística de saúde, é denúncia de estupro vulnerável. Criança não é mãe, estuprador não é pai, são infâncias roubadas pela misoginia e pela falta de rede de proteção”, lamentou.
A atividade também evidenciou o papel estratégico do controle social no fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Participantes destacaram a importância da atuação dos conselhos de saúde, dos movimentos sociais e das comissões intersetoriais na construção de políticas públicas mais justas e inclusivas.
Luana Cláudia Tavares, conselheira do Conselho Municipal do Direito da Mulher de Marabá (PA), falou sobre a importância da atuação dos conselhos no apoio às mulheres, não apenas no acesso à saúde, mas na garantia de direitos, destacando a necessidade de assegurar que nenhuma decisão seja tomada sem a participação ativa das próprias mulheres.
Pesquisa e ação
Cosette Castro, psicanalista e cofundadora do Coletivo Filhas da Mãe, compartilhou experiências sobre a realidade enfrentada pelas mulheres cuidadoras. “Nós éramos um grupo de mulheres que tínhamos familiares com demências. Existem mais de 100 tipos de demência, a mais conhecida é o Alzheimer e é a que mais atinge as mulheres, 75% dos casos são mulheres. Então a gente se reuniu para fazer um acolhimento, para fazer uma escuta dessas mulheres. Esse projeto evoluiu muito nesses seis anos, fizemos uma pesquisa de 2022 com mais de 600 mulheres e quase 90% eram mulheres. Nós trabalhamos com mulheres cuidadoras, familiares, amigas, vizinhas, que não recebem, não são remuneradas, a nossa pesquisa considerou super urgente e importante escutar todas as pessoas que cuidam dentro do universo das demências para entender qual era o perfil no Distrito Federal”, contou.
Segundo Cosette, os dados revelaram um cenário preocupante. Ela comentou sobre quatro “Es” que as mulheres estão vivenciando: envelhecimento, empobrecimento, endividamento e exaustão. “As mulheres cuidadoras familiares estão envelhecendo, a média de idade era 54 anos, há seis anos. Elas estão empobrecendo, porque a maior parte delas teve reduzida a carga de trabalho para poder cuidar, porque não tem orçamento para poder pagar uma ou mais pessoas para ajudar. Então o terceiro E é o endividamento que não para depois da morte do paciente, do familiar, porque ela tem que tentar se recuperar e ela já está há alguns anos fora do mercado ou deixando de estar progredindo no seu local de trabalho. E finalmente o que os estudos já têm mostrado é que elas estão exaustas, elas têm sobrecarga física e mental. Essas mulheres têm um sofrimento mental diário inclusive porque cuidam de pessoas que estão com uma doença progressiva sem cura e elas veem a morte iminente todos os dias e a sua própria finitude que é algo muito doloroso”, disse Cosette.
Política Nacional de Cuidados
Cosette também destacou a importância da Política Nacional de Cuidados, sancionada em dezembro de 2024 que institui o cuidado como direito fundamental e responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias, sociedade e mercado. “A Política Nacional de Cuidados tem três direitos fundamentais, o cuidado como um direito humano, o direito a cuidar, o direito a ser cuidada e o direito ao autocuidado. Porque até pouco tempo no Brasil se considerava autocuidado como egoísmo. Ou seja, a pessoa trabalhava muito e não tinha direito ao descanso, a fazer nada com muito prazer, até porque mulheres não param de trabalhar nesse país”, disse.
A discussão também abordou temas relacionados ao ciclo de vida das mulheres, como violência obstétrica, violência física, psicológica e sexual, além da necessidade de construir relações baseadas no cuidado e no respeito. Outro ponto levantado foi o crescimento da população idosa no Brasil e a urgência de pensar políticas intergeracionais.
“Precisamos pensar em uma sociedade do cuidado, não uma economia do cuidado, não uma cultura do cuidado, mas uma sociedade em que o cuidado seja o ponto central da vida cotidiana. Não dá pra tratar meninas, crianças e adolescentes de um lado e pessoas idosas do outro, como se não coexistissem. Cada vez mais nós temos famílias pequenas, pessoas que saem de um lugar para outro. Mais de 5 milhões de pessoas idosas moram sozinhas nesse país, o quanto é urgente a gente reconhecer esse cuidado invisível também das vizinhas e amigas que cuidam, dão suporte”, disse.
Continuidade do diálogo
Ao abordar os Centros Dia, unidades públicas destinadas ao atendimento especializado de pessoas idosas e pessoas com deficiência com algum grau de dependência, Cosette destacou sua importância para as mulheres cuidadoras e pontuou questões importantes a serem pensadas para o futuro. “Eles são essenciais para reduzir a sobrecarga física e emocional das mulheres que cuidam. Além disso, é fundamental que esses Centros Dia sejam pensados e planejados próximos a creches públicas. Temos muitas crianças sem a convivência de avós e, ao mesmo tempo, muitas pessoas idosas que não têm netos ou cujos familiares vivem distantes. Esses espaços podem incentivar a criação de laços entre diferentes gerações e fortalecer vínculos afetivos. Em uma sociedade cada vez mais individualizada, que nos incentiva ao isolamento, é necessário resgatar o espírito comunitário e coletivo”, finalizou.
Rodas de Conversa
As Rodas de Conversa integram o Projeto PARTICIPA+, promovido pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS) e executado pelo Centro de Educação e Assessoramento Popular (CEAP), com apoio técnico da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Esta Roda de Conversa contou com o auxílio da educadora de apoio Bárbara Santos. Ao final da Roda, as participantes avaliaram o encontro como potente e necessário, destacando a importância de dar continuidade ao debate. A diversidade de temas levantados demonstrou que ainda há muitos aspectos a serem aprofundados dentro da pauta da saúde das mulheres.
Próximas atividades
A programação das Rodas de Conversa segue nos próximos dias com novos temas:
25/03 – 14h
Tema: Saúde Mental: pessoas em situação de rua e imigrantes
Proposição: Departamento de Saúde Mental e UNIGETES/Lagoa Santa-MG; Maria Tereza Granha e Henrique Gathano Balieiro.
Informações e inscrições aqui
26/03 – 19h
Tema: GT Rosângela Berman: pessoas com deficiência e a luta anticapacitista no SUS
Proposição: GT Rosângela Berman.
Informações e inscrições aqui
27/03 – 19h
Tema: O papel da enfermagem no tratamento de Crohn e Retocolite
Proposição: DII Brasil – Associação Nacional das Pessoas com Doenças Inflamatórias Intestinais.
Informações e inscrições aqui
31/03 – 19h
Tema: DIGISUS – Acesso Público
Proposição: José Carlos Bazan (Unidos para Vencer).
Informações e inscrições aqui
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Reportagem: Jéssica França/CEAP
Foto: Arquivo



