
Educador colombiano Alfonso Torres destaca no FALA+ a importância da memória, da reflexão crítica e da valorização dos saberes produzidos nas práticas sociais
A produção de conhecimentos a partir das experiências concretas dos movimentos sociais, organizações populares e comunidades esteve em debate no quinto episódio da segunda temporada do Podcast FALA+, produzido pelo Centro de Educação e Assessoramento Popular (CEAP). O convidado foi o educador popular Alfonso Torres, professor da Universidade Pedagógica Nacional da Colômbia e referência latino-americana nos estudos sobre educação popular, pesquisa participativa e processos de sistematização.
A entrevista com Alfonso foi realizada em 2025 durante o Encontro Internacional de Educação Popular, promovido pelo Conselho de Educação Popular da América Latina e do Caribe (CEAAL), na Escola Nacional Paulo Freire. Ao compartilhar sua trajetória, Alfonso relembrou que seu envolvimento com a educação popular começou ainda na juventude, em Bogotá, na Colômbia. Influenciado por professores, pela organização comunitária de seu bairro e pelo contexto político latino-americano dos anos 1970, iniciou sua atuação na comunicação popular e, posteriormente, na alfabetização de jovens e adultos. “A educação popular foi assumida como nossa perspectiva de trabalho quando começamos a criar centros de educação de adultos nos bairros populares. Desde então, essa tem sido uma caminhada que une educação, organização social e transformação da realidade”, afirmou.
A sistematização como produção coletiva de conhecimento
Durante a conversa, Alfonso explicou que a sistematização é uma metodologia de produção de conhecimento que surge das práticas sociais, educativas, culturais e organizativas. “É que a pesquisa mais convencional deu prioridade basicamente às teorias e às áreas do conhecimento e não tanto às práticas e à realidade mesma. Ou seja, em troca, não só nas sistematizações, mas em outras práticas que buscam transformar a realidade, há pelo menos duas constatações: que nessas dinâmicas, nesses processos, não necessariamente mudamos o mundo como imaginávamos, de virá-lo de ponta cabeça, mas sim, geramos mudanças pequenas nas pessoas, nas relações, nos modos de fazer, nos contextos, que nem sempre são percebidos. Por um lado, a sistematização permite recuperar essas transformações e, por outro, algo que é muito bonito nessas mesmas práticas que atuamos, vamos aprendendo, vamos gerando saberes, que também não se visibilizam e não se organizam do modo como se organiza o conhecimento formal acadêmico”, disse.
Segundo o educador, essa perspectiva busca reconhecer e valorizar os aprendizados produzidos nos processos de transformação social, muitas vezes invisibilizados pelas formas tradicionais de pesquisa. “A sistematização ajuda a organizar e analisar os saberes produzidos na prática para colocá-los a serviço da transformação social”, destacou.
Para Torres, os movimentos sociais, as organizações populares e as comunidades produzem conhecimentos valiosos em suas experiências cotidianas, mas esses saberes nem sempre são reconhecidos pelo campo acadêmico tradicional.
Pesquisa participativa e crítica ao colonialismo do conhecimento
Ao abordar as diferenças entre a sistematização e a pesquisa acadêmica convencional, Alfonso destacou a influência de pensadores latino-americanos que questionaram a produção de conhecimento baseada exclusivamente em teorias importadas de outros contextos.
Ele citou o sociólogo colombiano Orlando Fals Borda, um dos principais nomes da pesquisa-ação participativa na América Latina, que denunciava o chamado “colonialismo intelectual”, caracterizado pela reprodução de teorias e perguntas desconectadas das realidades locais. “A sistematização faz parte de uma grande família de metodologias participativas que buscam produzir conhecimentos comprometidos com as necessidades concretas das organizações, dos grupos e dos movimentos sociais”, explicou.
Segundo Alfonso, o conhecimento produzido por meio dessas metodologias não tem como objetivo apenas ampliar teorias acadêmicas, mas contribuir diretamente para fortalecer processos organizativos e ações transformadoras.
Aprender com a experiência
Outro aspecto destacado pelo educador foi a contribuição da sistematização para os processos educativos. Inspirado nas reflexões de Paulo Freire, Alfonso criticou modelos de ensino que desconsideram as experiências e os saberes dos estudantes. Para ele, a aprendizagem não acontece apenas na escola, mas também nas práticas comunitárias, no trabalho, na convivência e na vida cotidiana. “Outra crítica à educação, que ainda predomina em nossas escolas, é que não toma em conta a prática, a experiência, a vida dos estudantes. Então, a sistematização também é uma possibilidade de reconhecer que não só se aprende na escola, mas se aprende na vida, se aprende na prática. O que temos que criar são mecanismos, procedimentos, caminhos para que essa experiência vivida possa se transformar em conhecimento”, afirmou.
Nesse sentido, ele defende que os saberes produzidos por lideranças comunitárias, trabalhadores, mulheres, jovens e populações tradicionais sejam valorizados como parte fundamental dos processos educativos.
Memória viva dos movimentos sociais
A entrevista também abordou a relação entre sistematização, memória coletiva e história dos movimentos sociais. Ao longo de sua trajetória, Alfonso participou da construção de metodologias voltadas à recuperação coletiva da memória, especialmente junto à organizações populares colombianas interessadas em registrar suas histórias, lutas, conquistas e desafios.
Segundo Torres, reconstruir a memória das organizações é uma forma de fortalecer identidades coletivas e compreender os caminhos percorridos ao longo do tempo. “Queremos recuperar a história das lutas sociais, dos triunfos, das alegrias, mas também dos problemas. A memória coletiva nos ajuda a compreender os processos vividos e a projetar novos caminhos para o futuro”, ressaltou.
Para o educador, uma das diferenças fundamentais dessas metodologias é que as decisões sobre o que investigar, registrar e analisar são tomadas coletivamente, garantindo o protagonismo das pessoas diretamente envolvidas nas experiências.
Desafios para a sistematização
Ao refletir sobre os desafios atuais, Alfonso destacou a necessidade de que movimentos sociais, sindicatos, organizações comunitárias e coletivos reconheçam a produção de conhecimento como parte estratégica de sua atuação.
Segundo ele, muitas organizações ainda enxergam a pesquisa como uma atividade exclusiva das universidades, deixando de perceber o potencial transformador da reflexão crítica sobre suas próprias práticas. “O primeiro desafio é reconhecer que produzir conhecimento sobre aquilo que fazemos fortalece nossa capacidade de ação e transformação. O segundo é cultivar perguntas, porque não existe sistematização sem inquietações e sem desejo de compreender melhor a realidade”, afirmou.
Outro desafio apontado pelo educador é garantir rigor metodológico nos processos de sistematização. “Não basta fazer uma reunião e registrar opiniões. É preciso formular perguntas, construir caminhos de investigação, analisar informações e interpretar os processos vividos. Produzir conhecimento exige compromisso e seriedade”, concluiu.
Onde ouvir
A segunda temporada do Podcast FALA+ aborda temas relacionados à educação popular, aos movimentos sociais e aos processos de transformação social na América Latina.O episódio completo está disponível nas principais plataformas de áudio e no canal do CEAP no YouTube.
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🎧 FALA+ – O Podcast do CEAP
🗓️ Temporada 2 | Episódio 5: Educação Popular e os Processos de Sistematização
👨🏫 Convidado: Alfonso Torres
⏱️ Duração: 25 minutos
🎙️ Apresentação: Jéssica França
🎬 Produção e edição: Diego Ecker e Marcelo Araújo
📼 Dublagem e tradução em Libras: Ana Caroline De David e?
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Foto: Diego Ecker/ASCOM CEAP – Alfonso Torres, educador popular e professor da Universidade Pedagógica Nacional da Colômbia
Reportagem: Jéssica França/ASCOM CEAP.



