
A Roda de Conversa realizada no dia 26 de março, com o tema “GT Rosângela Berman: pessoas com deficiência e a luta anticapacitista no SUS”, foi um importante espaço de diálogo sobre os desafios enfrentados pelas pessoas com deficiência no acesso à saúde, destacando a necessidade de avançar na construção de práticas anticapacitistas no Sistema Único de Saúde (SUS).
O tema desta roda foi proposto pelo Grupo de Trabalho (GT) Rosângela Berman e reuniu participantes de diferentes regiões do país. A educadora popular do PARTICIPA+, Vitória Bernardes Vieira, integrante do GT, destacou que o grupo foi concebido a partir de uma perspectiva diversa e interseccional. “É importante destacar que quando formamos o GT Rosângela Berman, a gente pensou na perspectiva de gênero, não foi à toa que a maior parte do grupo é formado por mulheres. Também na questão da diversidade racial, da natureza da deficiência, porque a gente entende que o capacitismo vai se manifestar de diferentes formas e precisamos estar ciente sobre isso”.
Vitória também ressaltou que o grupo busca ir além da acessibilidade técnica. “O que a gente quer não é só garantir a acessibilidade. A acessibilidade, se não for um compromisso ético e político, também não vai ser suficiente. Precisamos ser considerados e reconhecidos como sujeitos de direito”, disse. Segundo ela, uma das propostas do GT é a construção de um documento que incentive processos formativos mais inclusivos, desde sua concepção.
Unidade e fortalecimento da luta
Durante o encontro, diversos relatos evidenciaram situações adversas enfrentadas por pessoas com deficiência, reforçando a importância da união como estratégia fundamental de fortalecimento da luta. “Além de levar essa nossa luta do anticapacitismo para fora, nós precisamos ter uma luta interna de união. Nós precisamos unir as pessoas com deficiência, parar de falar nesta ou naquela deficiência e falar na universalidade, na acessibilidade universal e nas pessoas com deficiência em todas elas, independentemente de qual seja”, afirmou um dos participantes.
Outro participante alertou para os riscos da fragmentação do movimento. “Se nós não juntarmos força com todos, vai ficar muito mais difícil”, pontuou. Outro aspecto destacado foi a necessidade de garantir o protagonismo das próprias pessoas com deficiência nos espaços de decisão. Participantes ressaltaram que é fundamental assegurar suporte e acessibilidade, mas sem substituir suas vozes ou representações. “Nada sobre nós, sem nós”, pontuou Vitória.
Falta de acessibilidade e barreiras na comunicação
A roda também trouxe relatos que evidenciam desafios concretos no atendimento às pessoas com deficiência no SUS, especialmente no que diz respeito à comunicação com pessoas surdas. A representante da comunidade surda de Passo Fundo (RS), Lidiéli Portiliotti, presidente da Associação Desportiva e Cultural de Surdos do município, relatou situações vivenciadas por mulheres surdas em serviços de saúde.
Entre os casos apresentados, está o de uma mulher que não conseguiu compreender orientações médicas antes de uma cirurgia por falta de intérprete de Libras. “O médico e a enfermeira estavam falando e não havia comunicação nenhuma com ela. Ninguém sinalizava. Ela pediu um intérprete e não teve”, relatou.
Outro caso envolveu uma idosa surda que recusou realizar uma cirurgia por não entender os procedimentos. “Ela ficou com medo, porque ninguém explicou nada. Não permitiram intérprete. Foi uma falha, ela tinha esse direito”, destacou.
Também foram relatadas dificuldades no acompanhamento de crianças autistas filhas de pais surdos, sem mediação em Libras, além de situações de preconceito agravadas pela intersecção entre deficiência e raça. “É um problema muito grave que a gente sofre, essa falta de comunicação. É um direito ter intérprete para garantir entendimento e segurança no atendimento”, afirmou.
Outro relato apontou a negativa de um profissional de saúde em permitir uma videochamada com intérprete durante consulta. “Ela disse que era um direito dela, que precisava entender o que estava acontecendo com a sua saúde, mas foi impedida”, contou.
Vitória destacou que, em 2021, um estudo da Fiocruz revelou um cenário preocupante: das 606 maternidades públicas brasileiras, menos de 8% possuem algum tipo de acessibilidade. Dentre elas, apenas 4,3% estão adaptadas para pessoas com deficiência física, 3,3% para pessoas surdas e nenhuma oferece acessibilidade para pessoas com deficiência visual. “A gente realmente precisa ocupar esses espaços e pensar políticas que nos reconheçam”, afirmou.

Você sabe o que é o anticapacitismo?
O anticapacitismo é a luta contra o capacitismo, uma forma de preconceito que hierarquiza pessoas a partir de seus corpos e capacidades, sustentando a falsa ideia de que algumas são mais aptas do que outras para trabalhar, aprender, amar ou exercer plenamente sua cidadania.
Esse tipo de discriminação é reforçada em diferentes espaços sociais e institucionais, inclusive na mídia, ao estabelecer padrões do que seria considerado “normal”. Nesse sentido, a luta anticapacitista dialoga com outras agendas, como o antirracismo, na defesa da inclusão, da equidade e do respeito às diversidades.
Desafios e caminhos para o SUS
Os relatos reforçaram a urgência de fortalecer políticas públicas que garantam acessibilidade plena e atendimento humanizado no SUS, reconhecendo as pessoas com deficiência como sujeitos de direitos.
A Roda de Conversa do Projeto PARTICIPA+, promovido pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS) e executado pelo Centro de Educação e Assessoramento Popular (CEAP), reafirmou a importância do controle social e da participação ativa dessas pessoas na construção de políticas públicas, além da necessidade de avançar no enfrentamento ao capacitismo, tanto nas instituições quanto na sociedade.
Ao final, o encontro foi avaliado como um espaço fundamental para dar visibilidade às demandas, compartilhar experiências e fortalecer a luta por um SUS mais inclusivo, acessível e equitativo. A atividade contou com a colaboração da educadora de apoio do CEAP, Mariana Prates, além do trabalho das tradutoras e intérpretes de Libras Loreni Lucas dos Santos Chagas e Suzana Vio Moraes.
Continuidade das Rodas de Conversa
As Rodas de Conversa ocorrem de forma online, por meio do Google Meet, em datas e horários combinados entre o CEAP e os proponentes dos temas. Para sugerir temas, basta preencher o formulário disponível no site do projeto: participamais.ceap-rs.org.br
📅 Próxima Roda de Conversa
Data: 31/03
Horário: 19h
Tema: DIGISUS – Acesso Público
Proposição: José Carlos Bazan (Unidos para Vencer)
🔗 Informações e inscrições aqui
_
Reportagem: Jéssica França/CEAP



