No mês da Luta Antimanicomial, Roda de Conversa do PARTICIPA+ debate impactos das tecnologias virtuais na saúde mental

Em meio às mobilizações do mês da Luta Antimanicomial, a saúde mental foi tema de debate em Roda de Conversa do Projeto PARTICIPA+, realizada no dia 06 de maio. Com o tema “Saúde Mental no tempo das tecnologias virtuais”, a atividade reuniu participantes de diferentes regiões do país em um encontro online para refletir sobre os impactos das plataformas digitais na vida cotidiana, nas relações humanas e no bem-estar coletivo.

A atividade contou com a participação de Marcelo Barbosa Fontes, psicólogo, filósofo e mestre em Literaturas da Língua Portuguesa, e de Ramon Alfenas Panadés, psicólogo, trabalhador do SUS e militante da luta antimanicomial. O debate trouxe reflexões sobre o avanço das tecnologias virtuais, os efeitos do uso excessivo das redes sociais e os desafios contemporâneos para a promoção da saúde mental.

Durante a exposição, Ramon Panadés destacou que a saúde mental deve ser compreendida como um processo que envolve corpo, mente, afetos, pensamentos e a relação das pessoas com a comunidade e a natureza. Segundo ele, o bem-estar individual está diretamente conectado ao bem-estar coletivo. “Entendo que o bem-estar de um indivíduo só tem sentido se tiver o bem-estar do coletivo, da natureza, do rio, da montanha. A gente é permeado o tempo todo por aquilo que nos habita de fora e pelo modo como a gente habita o fora também”, afirmou.

O psicólogo chamou atenção para a forma como os dispositivos digitais passaram a ocupar um espaço central no cotidiano, alterando modos de convivência e produzindo impactos emocionais e físicos. Entre as consequências apontadas estão o aumento de casos de ansiedade, depressão, dependência tecnológica, prejuízos no sono, dificuldades cognitivas e problemas físicos relacionados ao uso excessivo das telas.

Panadés também criticou o que definiu como uma “colonização do capital tecnológico”, em que algoritmos e plataformas digitais são estruturados para estimular o engajamento constante dos usuários, enfraquecendo vínculos comunitários e relações presenciais.

Na sequência, Marcelo Barbosa Fontes aprofundou o debate ao abordar aspectos históricos e filosóficos da internet e das redes sociais. O psicólogo diferenciou o conceito de virtual como potência criativa da ideia atual de virtualidade marcada pela lógica do consumo, da simulação e do controle exercido pelas grandes corporações tecnológicas.

Segundo Fontes, as plataformas digitais são desenhadas para ampliar o tempo de permanência dos usuários online, transformando as próprias pessoas em produtos. “Há toda uma arquitetura, um desenho online para que as pessoas possam ficar mais tempo. Os produtos novamente são esses usuários, são as pessoas. Engajamento vira controle”, destacou.

O filósofo também alertou para o papel dos algoritmos na formação de comportamentos e percepções. “O feed não apenas reflete quem somos, mas influencia quem nos tornamos”, afirmou.

Como formas de enfrentamento aos impactos do uso excessivo das tecnologias, os debatedores defenderam práticas cotidianas de desconexão, fortalecimento dos vínculos presenciais, momentos de silêncio e valorização da convivência comunitária.

Ao final da atividade, Marcelo Fontes defendeu ainda a necessidade de maior transparência e auditoria nos mecanismos algorítmicos das plataformas digitais, destacando os impactos sociais, culturais e políticos produzidos pela ausência de controle público sobre essas tecnologias.

Luta Antimanicomial

A atividade também dialogou com as mobilizações do mês da Luta Antimanicomial, marcado nacionalmente pelo 18 de Maio, data que simboliza a defesa do cuidado em liberdade, do respeito à dignidade das pessoas em sofrimento psíquico e da superação do modelo manicomial no Brasil. O movimento atua na construção de uma política de saúde mental baseada na convivência comunitária, nos direitos humanos e no fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), consolidada a partir da Reforma Psiquiátrica Brasileira.

Rodas de Conversa

As Rodas de Conversa do Projeto PARTICIPA+ são uma iniciativa do Conselho Nacional de Saúde (CNS), executada pelo Centro de Educação e Assessoramento Popular (CEAP). As Rodas ocorrem de forma online, por meio do Google Meet. Interessados em sugerir novos debates podem acessar o formulário disponível no site participamais.ceap-rs.org.br/rodas-de-conversa

.

.

Fotos: Reprodução
Reportagem: Jéssica França/CEAP

Gostou? Compartilhe!

Mais notícias