Educação popular na perspectiva da interseccionalidade fortalece lutas e articulações na América Latina

Educadora guatemalteca Verónica del Cid destaca no FALA+ a importância da memória, dos feminismos e da construção coletiva para a transformação social

A educação popular, os feminismos e a construção de redes de articulação latino-americanas estiveram no centro do debate do quarto episódio do Podcast FALA+, produzido pelo Centro de Educação e Assessoramento Popular (CEAP). A convidada foi a educadora popular e assistente social guatemalteca Verónica del Cid, coordenadora da Rede Mesoamericana de Educação Popular Alforja e integrante do Conselho de Educação Popular da América Latina e do Caribe (CEAAL).

A segunda temporada do Podcast FALA+ aborda temas relacionados à educação popular, aos movimentos sociais e aos processos de transformação social na América Latina. A entrevista com Verónica foi realizada durante o Encontro Internacional de Educação Popular, promovido pelo CEAAL na Escola Nacional Paulo Freire, em São Paulo, reunindo educadoras e educadores populares de diversos países da América Latina e do Caribe.

Ao compartilhar sua trajetória, Verónica destacou que sua formação foi profundamente marcada pela realidade vivida na Guatemala, país que enfrentou décadas de violência política e genocídio de Estado. Filha de uma família camponesa, ela relata que o contato com situações de pobreza, exclusão e desigualdade despertou questionamentos que mais tarde a aproximaram da educação popular. “Percebi que muitas das práticas que realizávamos nas comunidades já eram de educação popular, embora não utilizássemos esse nome. Mais tarde compreendi que essas ações faziam parte de um projeto político-pedagógico comprometido com a transformação social”, afirmou.

Interseccionalidade como ferramenta de compreensão da realidade

Durante a conversa, Verónica abordou um dos conceitos centrais dos debates contemporâneos da educação popular: a interseccionalidade. Segundo ela, compreender as múltiplas formas de opressão é fundamental para analisar as desigualdades presentes na sociedade.

“As mulheres fazem tranças e nossas tranças, que têm muitos fios, representam também que em nossos corpos está atravessada toda essa dor, todo esse medo e toda essa culpa deixados pela herança colonial. Se pensamos em nosso corpo como elemento pedagógico para compreender o poder, encontramos essa interseccionalidade no corpo de cada mulher e de cada pessoa invisibilizada”, destacou.

Questões relacionadas ao gênero, à raça, à idade, ao território e à classe social se entrelaçam e produzem diferentes experiências de exclusão e violência. “Sexualizaram os corpos para explorar, dominar e controlar os territórios invadidos. Havia o interesse de explorar e saquear. Além disso, nessa construção de poder, o trabalho e os corpos foram sexualizados. Por isso, para nós, o patriarcado chega junto com o colonialismo para fortalecer essa lógica de exploração”, explicou.

Para ilustrar a interseccionalidade, a educadora utiliza a metáfora da “trança”, representando os diversos fios que compõem as estruturas de poder e dominação. “Não podemos entender as opressões de forma separada. Elas estão conectadas. Se queremos romper essas correntes, precisamos compreender como elas se articulam e se fortalecem mutuamente”, afirmou.

Feminismos, memória e justiça social

A entrevistada também destacou a contribuição dos feminismos para a educação popular e para a construção de processos de transformação social nos territórios.

Na Guatemala, organizações vinculadas à Rede Alforja desenvolvem ações com mulheres indígenas e camponesas voltadas à recuperação da memória histórica, à reparação de violências e ao fortalecimento das identidades coletivas.

Entre as iniciativas estão processos de acompanhamento psicossocial, ações jurídicas para reconhecimento e reparação de crimes cometidos durante o período de violência estatal e espaços de formação feminista. “Recuperar a história das mulheres é fundamental. Muitas vezes fomos invisibilizadas, inclusive dentro de organizações comprometidas com a emancipação social. Resgatar essas trajetórias é também um ato político”, ressaltou.

Saberes ancestrais e resistência ao colonialismo

Outro tema abordado foi a valorização dos saberes ancestrais dos povos indígenas. Atuando na formação universitária de jovens mulheres indígenas kaqchikel, Verónica enfatiza que o processo educativo parte da vida cotidiana e das experiências concretas das comunidades.

Questões como a relação com a terra, a água, os alimentos, os rituais, a espiritualidade e os conhecimentos tradicionais são compreendidas como elementos fundamentais para fortalecer identidades e enfrentar heranças coloniais ainda presentes. “Não se trata apenas de recuperar o passado. Estamos falando de modos de vida que seguem existindo e que oferecem outras formas de compreender o mundo, o desenvolvimento e as relações humanas”, afirmou.

Articulação latino-americana como desafio permanente

Ao refletir sobre o papel da Rede Alforja e do CEAAL, Verónica ressaltou a importância da articulação entre organizações e movimentos sociais diante dos desafios comuns enfrentados pelos povos latino-americanos.

Segundo a educadora, os mecanismos de dominação, exploração econômica e o avanço de discursos conservadores possuem características semelhantes em diferentes países da região, tornando indispensável a construção de alianças internacionais. “A transformação não pode acontecer de forma isolada. O que fazemos em nossos territórios é fundamental, mas precisamos construir estratégias coletivas, fortalecer redes e criar projetos políticos comuns”, defendeu.

Para Verónica, um dos principais desafios da atualidade é fortalecer a unidade na diversidade em um contexto marcado pelo individualismo e pela fragmentação social. “Não precisamos ser iguais. Precisamos reconhecer nossas diferenças e, ao mesmo tempo, construir acordos que nos permitam caminhar juntos na defesa da vida, dos territórios e dos direitos dos povos”, concluiu.

Onde ouvir

O episódio completo está disponível nas principais plataformas de áudio e no canal do CEAP no YouTube.

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🎧 FALA+ – O Podcast do CEAP
🗓️ Temporada 2 | Episódio 4: A educação popular na perspectiva da interseccionalidade
👩‍🏫 Convidada: Verónica del Cid
⏱️ Duração: 32 minutos
🎙️ Apresentação: Jéssica França
🎬 Produção e edição: Diego Ecker, Marcelo Araújo e Vitor Pigatto
📼 Dublagem: Ana Caroline De David

Foto: Diego Ecker/ASCOM CEAP – Verónica del Cid, coordenadora da Rede Mesoamericana de Educação Popular Alforja e integrante do CEAALReportagem: Jéssica França/ASCOM CEAP.

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