Educação popular: conscientizar, transformar e construir coletivamente

O que é educação popular? Muito se fala sobre o poder da educação, de como ela abre os horizontes e seu poder de transformação, mas existe algo tão potente quanto, que transborda dos círculos de formação acadêmicos, voltados à educação mas com uma metodologia, uma forma de pensar e atuar de forma coletiva. 

O educador popular Pedro Cruz explica que a Educação Popular em Saúde (EPS) se desenrola como um processo de ensino-aprendizagem verdadeiramente singular, conectado à busca por uma transformação social profunda. “É crucial, logo de partida, distinguirmos a EPS de iniciativas avulsas ou de movimentos populares isolados. Sua essência pulsa em um percurso educacional deliberado e solidamente alicerçado”, disse.

Cruz, que atua no Projeto Participa+, desenvolvido pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS), em parceria com o Centro de Educação e Assessoramento Popular (Ceap), destaca que o termo “Educação” na EPS não é um mero detalhe. “Ele é o coração pulsante, um componente central e indispensável. Não estamos falando de qualquer ação popular, mas sim de um caminho que, por sua própria natureza, abraça um contínuo e mútuo ato de ensinar e aprender. Na visão da EPS, essa dinâmica de assimilação e transmissão de conhecimento se destaca por sua construção coletiva, onde as pessoas se reúnem para partilhar seus saberes e atuar de forma conjunta”, pontua. 

Paulo Freire

Quando se fala em educação popular, o destaque é para o autor Paulo Freire, um dos pilares metodológicos que por meio da obra “Pedagogia do Oprimido“, publicada em 1968,  revolucionou a forma de se pensar educação, destacando a importância da conscientização, da construção coletiva dos saberes e da transformação social. “Como Paulo Freire tão brilhantemente demonstrou, todos ensinam e todos aprendem, e é justamente nesse intercâmbio constante que o saber se ergue e se fortalece”, disse Cruz. 

Outra educadora popular que atua no Participa+, Jaqueline Guarnieri, destaca a célebre frase do autor: “A educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo.” “Essa reflexão sintetiza o papel essencial da Educação Popular como ferramenta de mobilização, conscientização e mudança social. Fundamentada no diálogo, na escuta ativa e na valorização dos saberes populares, a Educação Popular rompe com modelos tradicionais e verticalizados de ensino”, pontua. 

Jaqueline salienta que em vez de impor conteúdos prontos, a educação popular  promove a construção coletiva do conhecimento a partir da realidade concreta dos sujeitos. “A problematização das condições de vida, das opressões e das desigualdades permite que os educandos se reconheçam como protagonistas de suas histórias e agentes de transformação”, disse.

Educação Popular em Saúde

A EPS não se contenta com a efemeridade de palestras isoladas ou campanhas pontuais; ela se configura, antes, como um processo contínuo e orgânico. Esse caráter processual se justifica por uma série de princípios e fundamentos que exigem engajamento e um desenvolvimento progressivo. “Assim como na construção de uma casa, onde cada tijolo é cuidadosamente assentado, a EPS se edifica por meio do diálogo incessante, da construção coletiva de ideias e da paciente costura de conhecimentos, demandando tempo, dedicação e muita persistência”, afirmou Cruz.

Conforme o educador, um dos pilares da EPS é o trabalho, não apenas como uma atividade, mas como uma ação genuinamente criativa e transformadora de homens e mulheres sobre a própria realidade. “O propósito maior é humanizar essa realidade, superando condições e determinações que, em última análise, geram dor, sofrimento e injustiça social. Dessa forma, os processos da EPS devem estar profundamente articulados a uma ação concreta, seja no âmbito de movimentos sociais, sindicatos, associações ou no dia a dia de educadores e educadoras. O conceito de trabalho, aqui, vai muito além da especificidade da saúde, abraçando uma dimensão mais ampla e abrangente de ação coletiva e engajada”, disse.

Trabalho nas comunidades

Outro ponto destacado por Jaqueline, aborda a importância da atuação nos territórios e comunidades. “A Educação Popular convoca para o trabalho com as comunidades, e não para elas. Ao estimular o pensamento crítico e o engajamento político, ela contribui para o fortalecimento da cidadania, da autonomia e da organização social. Dessa forma, a Educação Popular atua como força propulsora de processos emancipatórios, que, a partir do local e do cotidiano, geram impactos mais amplos na luta por justiça social, equidade e democracia”, afirma. 

Cruz destaca ainda que a Educação Popular em Saúde tem seu ponto de partida inegociável na realidade social, com todas as suas dinâmicas, complexidades e determinações.  “As ações desenvolvidas na EPS não são escolhidas de forma arbitrária ou por puro capricho; ao contrário, são impulsionadas por aquilo que a realidade provoca e exige de nós. A matéria-prima fundamental da EPS são os saberes da vida, um vasto e rico manancial que abarca os conhecimentos adquiridos pela experiência, a sabedoria popular, o legado ancestral e, também, os saberes científicos”, disse.

A EPS busca estabelecer diálogo e cooperação harmoniosa entre essas distintas formas de saber, sem hierarquias predefinidas, com o objetivo de desvelar as chamadas “situações-limite” – ou seja, os desafios e problemáticas que geram desumanização, sofrimento, exclusão e iniquidades sociais. “A partir desse diagnóstico coletivo das situações-limite, a Educação Popular em Saúde nos conduz à construção solidária dos “inéditos viáveis”, um termo cunhado por Paulo Freire para designar as propostas alternativas, os novos conhecimentos e as possibilidades concretas que nos impulsionam a superar esses desafios tão urgentes. Esse processo de construção é inerentemente contínuo e requer um constante aprendizado mútuo, bem como uma leitura crítica e perspicaz do mundo que nos cerca”.

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