
Conscientizar, esperançar e agir integram alguns dos desafios
Vivemos um mundo de transformações, enfrentamos pandemias, guerras, eventos climáticos que desafiam a existência e a forma de pensar e agir das populações. Como pensar a educação diante de contextos tão complexos e distintos? Como promover uma educação libertadora, quando ainda há realidades tão desafiadoras e eventos que já deveríamos ter superado há tempos, ainda sendo enfrentados pelas populações, a exemplo da fome, da miséria, da falta de água e saneamento básico?
O mundo fala do impacto da inteligência artificial, das transformações e possibilidades de acesso propiciadas pelo advento da internet e da revolução digital, contudo, há muitos desafios que precisam ser superados e como a educação popular pode contribuir para essa evolução? A educadora popular Jaqueline Guarnieri, que atua no Projeto Participa+, desenvolvido pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS), em parceria com o Centro de Educação e Assessoramento Popular (Ceap), destaca que um dos desafios enfrentados pela educação popular é a desigualdade e a exclusão social que são frutos da lógica capitalista. “Nessa lógica que historicamente subalterniza determinados corpos para garantir sua manutenção, um dos principais desafios da Educação Popular é justamente construir, de forma coletiva, estratégias para enfrentar essa realidade opressora. Além disso, vivemos em uma cultura que estimula a individualidade, o conformismo e a descrença na ação coletiva, o que torna ainda mais difícil acreditar na possibilidade de transformação social”, disse.
Em mundo tão desigual, uma das problemáticas vividas pela sociedade atual é a valorização do individualismo, dificultando ações de mobilização e transformação conjunta, especialmente quando se fala em Educação Popular em Saúde (EPS), conforme destaca Pedro Cruz, educador popular que também atua na equipe do Participa+. “No cenário contemporâneo, especialmente após o período de retrocesso civilizatório que presenciamos entre 2016 e 2022, a EPS se depara com desafios complexos em contextos de desigualdade e exclusão educacional. O desmonte de políticas públicas estruturantes e o recrudescimento de ideologias ultraconservadoras e de extrema-direita impactaram profundamente a malha social e política do país, tornando o trabalho da Educação Popular ainda mais urgente e relevante”, disse.
Cruz salienta ainda que a reconstrução da nação a partir de 2023, embora imperativa, se dá em um país que se encontra ainda profundamente polarizado no campo político, o que se reflete em diferentes âmbitos. “Nesse contexto, a Educação Popular em Saúde se revela mais necessária do que nunca. Ela não se limita a apresentar alternativas ao fatalismo e à condenação de políticas emancipatórias; ao contrário, ela desenvolve e desvela essas realizações na prática, envolvendo pessoas que, mesmo com visões de mundo distintas, podem se engajar e gradualmente aderir a um projeto progressista ao vivenciarem os resultados efetivos de suas ações”, afirma.

Esperançar
Um ponto destacado pelos educadores é que muitas vezes as perspectivas de futuro são limitadas, fazendo com que as populações tenham dificuldade de acreditar que as coisas podem ser diferentes, que é possível mudar realidades. “Outro desafio fundamental é manter viva a capacidade de esperançar — ou seja, de alimentar a esperança crítica que move a ação, o engajamento e a construção de novas formas de viver e conviver de maneira mais justa e solidária”, pontua Jaqueline.
Cruz lembra que o diagnóstico coletivo das situações-limite, na educação popular conduz à construção solidária. “Também conduz aos “inéditos viáveis”, um termo cunhado por Paulo Freire para designar as propostas alternativas, os novos conhecimentos e as possibilidades concretas que nos impulsionam a superar esses desafios tão urgentes. Esse processo de construção é inerentemente contínuo e requer um constante aprendizado mútuo, bem como uma leitura crítica e perspicaz do mundo que nos cerca”, disse.
Educação Popular em Saúde
O conhecimento da Educação Popular em Saúde não é meramente técnico ou academicista, pois integra a sabedoria dos povos, as experiências, as partilhas e devem visar o cuidado integral, humanizado e verdadeiramente emancipador das pessoas.
Cruz salienta que muitas vezes, em contextos educacionais marcados pela exclusão, a Educação Popular em Saúde assume um papel na promoção incessante da participação social como uma estratégia fundamental de cidadania. “A participação na EPS não é passiva; ela é, ao invés disso, ativa, efetiva, orgânica e profundamente engajada, permitindo que as pessoas se formem continuamente, construam pontes e redes de mobilização, e observem a potência intrínseca do engajamento coletivo”, disse.
A Educação Popular em saúde, potencializa a revitalização de espaços de participação social, sejam eles institucionais ou não, convidando as pessoas a se importarem com o que ocorre em seus próprios contextos, a dialogar e analisar coletivamente os problemas, buscando estratégias e alternativas para sua superação. “Cada conquista, por menor que seja, reforça a força e a riqueza inerentes à participação social, especialmente na defesa e no aprimoramento contínuo do Sistema Único de Saúde (SUS). O SUS, afinal, é a expressão mais cristalina de um direito fundamental, à saúde, que, apesar de ter sido brutalmente ameaçado e alvo de inúmeras tentativas de desmonte, permaneceu notavelmente resiliente, muito graças à incessante mobilização de conselheiros, lideranças e todas e todos aqueles que, vigilantes, lutam incansavelmente por sua defesa e por todas as conquistas que ele representa”, finalizou Cruz.



