
Irmão Moacir Filipin fala sobre sua trajetória com o Ceap e a missão, resistência e esperança em sua vivência em Moçambique
O Irmão Moacir Filipin, membro da Congregação dos Missionários da Sagrada Família e atuante no Centro de Educação e Assessoramento Popular – Ceap, desde os anos 1990, compartilha sua trajetória marcada por dedicação, desafios e aprendizado, tanto no Brasil quanto além-mar. Em entrevista recente, ele falou sobre sua experiência missionária em Moçambique, seu envolvimento histórico com o Ceap e a importância da educação popular para a transformação social.
Moçambique: aprendizado constante em solo africano
Desde que iniciou sua missão em Moçambique, há cerca de dois anos, Irmão Moacir tem vivenciado, segundo suas palavras, “uma escola de aprendizagem”. Atuando em uma escola agrícola no interior do país africano, ele enfrenta o desafio de compreender e respeitar um contexto cultural profundamente diferente do brasileiro. “Por mais que a gente saiba que as culturas são diferentes, na prática não é fácil. É preciso se monitorar o tempo todo para não fazer pré-julgamentos, para entender e também contribuir com aquele ambiente”, relata.
A escola onde atua segue o modelo de ensino técnico-profissional, com 80% das aulas voltadas à prática e 20% à teoria. Com cerca de 82 estudantes internos – jovens entre 17 e 26 anos em situação de vulnerabilidade -, o espaço enfrenta limitações de estrutura e recursos, apesar da grande demanda. “A terra é fértil, há muita água, mas falta investimento. A produção agrícola ainda é manual, quase não há maquinário ou tração animal. É um cenário desafiador”, comenta.
Mesmo diante das dificuldades, Moacir destaca um dos maiores aprendizados que leva de Moçambique: a alegria do povo. “Apesar da precariedade em saúde, alimentação e educação, as pessoas vivem com uma leveza e uma alegria que nos fazem refletir. Aqui no Brasil temos tudo, mas vivemos estressados. Lá, a vida tem outro ritmo”.
Do Ceap aos dias atuais: memória, resistência e reinvenção
Com uma longa trajetória no Ceap, Irmão Moacir ingressou na instituição em meados de 1994, integrando-se rapidamente às atividades e assumindo funções de direção e coordenação. Ele recorda os anos iniciais, especialmente os desafios financeiros que colocaram o futuro da entidade em risco. Um momento decisivo foi a aprovação de um plano trienal junto à Misereor, parceria que permanece até hoje e foi essencial para a sustentabilidade do Ceap. “O Ceap sempre foi um espaço de aprendizagem para mim. Mesmo nos momentos mais difíceis, manteve-se fiel à sua missão de transformação social e resistência diante das injustiças”.
Segundo ele, o foco do Ceap nunca se desviou: promover uma sociedade mais justa, com especial atenção à saúde, mas também abrindo espaço para novas temáticas que dialoguem com o contexto atual. “A nossa Congregação deu muito apoio ao Ceap no começo e hoje percebemos que o Ceap anda com suas próprias pernas, mantendo sua missão de ser uma força de resistência do mundo que a gente vive. É animador ver que, mesmo após quase 40 anos, o Ceap continua com essa energia, com novos rostos e gerações se engajando, especialmente a juventude. Isso renova a esperança”.

Educação popular: ferramenta de transformação e consciência crítica
Para Moacir, a educação popular é um dos pilares mais fortes do Ceap e continua sendo essencial nos tempos atuais. Mais do que dar voz, ela ajuda a formar consciências críticas e fortalece os espaços de cobrança e controle social sobre as instituições públicas. “Educação popular é dar voz àqueles que não têm voz. Penso que a grande riqueza da educação popular é isso, formar essa consciência crítica que muitas vezes a gente não encontra nem nas academias, mas que a educação popular procura trabalhar e fazer com que as pessoas, de fato, se tornem cidadãs, tendo essa consciência crítica diante do mundo em que vivem, do contexto social, político e econômico”.
Ele destaca ainda que a existência de organizações como o Ceap não é regra em muitos lugares do mundo. “Estive em regiões onde não há organização da sociedade civil. E a ausência desses espaços torna muito mais difícil a luta por justiça e pela garantia de direitos”.
Uma mensagem à juventude
Ao final da entrevista, Moacir se dirigiu à juventude que hoje integra o Ceap e outros movimentos sociais: “Dizem que o jovem de hoje não quer nada com nada. Mas isso não é verdade. É um outro perfil de jovem, que chega com novas linguagens e tecnologias, e que também se engaja, colocando isso a serviço de uma causa. Isso é fantástico”.
Ao ver novas gerações assumindo protagonismo em ações e projetos sociais, ele reforça o sentimento de que valeu a pena resistir. “Ver essa juventude engajada mostra que nem tudo está perdido. É um sinal de esperança, de que o sonho continua vivo”.



