
O Centro de Educação e Assessoramento Popular (CEAP) realizou, na segunda-feira (20), uma visita à Comunidade Quilombola e Pesqueira de Conceição Salinas, localizada no município de Salinas da Margarida, a cerca de 265 km de Salvador (BA). A atividade foi pensada em conjunto com a Articulação das Mulheres Pescadoras (ANP), movimento que integra o Fórum DH Saúde.
A equipe técnica do CEAP, composta pela educadora popular e diretora da entidade, Elenice Pastore, e pela educadora popular Nara Peruzzo, chegou à comunidade utilizando o sistema de ferry-boat — o principal meio de transporte entre os moradores locais, que permite a travessia pela Baía de Todos os Santos e encurta o trajeto.
Ao chegar ao território, as educadoras foram recebidas de forma calorosa pela pescadora Maria José Conceição Sacramento, conhecida como Dona Zezé, e por sua neta. Em sua casa simples e acolhedora, já preparavam um almoço típico para receber as visitantes.
A visita contou ainda com a presença de Luíza dos Santos, moradora do Quilombo Cambuta (Santo Amaro) e integrante da Articulação das Mulheres Pescadoras (ANP). Juntas, elas apresentaram à equipe as frutas, o jardim e a horta cultivados por Dona Zezé.
Durante o almoço, Dona Zezé compartilhou histórias de sua vida, da criação dos oito filhos e da trajetória de resistência da família na comunidade. Orgulhosa, destacou: “Nasci e me criei aqui. Minha mãe e meus avós são fruto dessa comunidade. Amo muito este lugar onde nasci”.




Conhecendo o território
Após o almoço, mesmo sob chuva, a equipe seguiu acompanhada das lideranças Nataline Galvão e Lucineia Macedo Muniz, da Associação das Mulheres Pescadoras Artesanais e Quilombolas de Conceição de Salinas (APAQCS). Durante a caminhada, puderam conhecer as áreas de moradia, lazer e trabalho, além de admirar a beleza natural do território, marcado por árvores nativas, águas cristalinas e barcos de pesca que compõem um cenário encantador.
Na chamada Área do Taus, zona de uso sustentável formada por manguezais, a União destinou espaços para cerca de 30 famílias manterem pequenas barracas e guardarem materiais de pesca.
A roça e os modos de vida
Seguindo pela trilha, o grupo chegou à roça, onde pôde observar as plantações e os espaços de convivência da comunidade. Lá, foram recebidos por filhos de Dona Zezé e por outros integrantes do quilombo, que ofereceram água de coco colhida na hora e contaram que cultivam mandioca, milho e plantas rasteiras, como melancia e amendoim, entre outras. “Há uns dois anos temos percebido que, devido ao aquecimento global, muitas plantas frutíferas morreram. A crise climática tem provocado enchentes mais frequentes na maré, e está cada vez mais difícil saber quando é maré pequena e quando é maré grande aqui na roça”, relatou uma das lideranças.
As mudanças climáticas, além de impactarem o ambiente natural, têm se refletido também na vida econômica e social da comunidade, contribuindo para o aumento de situações de violência contra as mulheres e adoecimento mental.
Durante as conversas, as lideranças relataram os desafios enfrentados pelos trabalhadores e trabalhadoras, especialmente os problemas de saúde decorrentes do esforço físico e do trabalho repetitivo na pesca e no marisco.
Um ponto importante destacado na visita foi a saúde das mulheres pescadoras. Por realizarem um trabalho manual e permanecerem abaixadas por longas horas em ambientes com água e umidade, elas enfrentam inúmeros problemas físicos e de saúde.





Associação e cotidiano das pescadoras
Na volta, após atravessar os manguezais, a equipe visitou a sede da APAQCS, onde conheceu um pouco da história de luta das mulheres quilombolas e os projetos desenvolvidos pela associação. As pescadoras relataram a dura rotina de trabalho, que começa antes do amanhecer: acordar às 3h, preparar o café da manhã, arrumar os apetrechos de pesca e seguir para a maré. Após horas mariscando sob o sol, retornam a pé, com baldes pesados na cabeça, e ainda realizam as tarefas domésticas e o beneficiamento do marisco.
Presença e compromisso
Encerrando a visita, Elenice Pastore destacou a importância da aproximação do CEAP com os territórios e movimentos sociais populares. Segundo ela, essa é a essência do trabalho da entidade, que completa 38 anos de história em dezembro. “O CEAP só existe se está junto com os movimentos sociais. Nossa razão de ser é acompanhar, assessorar e caminhar ao lado dessas lutas. Estar em Conceição Salinas é vivenciar de perto o território, sentir sua força e fortalecer essa rede de resistência e esperança”, afirmou.
–
Reportagem e fotos: Jéssica França/Ascom CEAP



