Roda de Conversa do PARTICIPA+ reuniu participantes para refletir sobre gordofobia, padrões de beleza, direito à saúde e os impactos da medicalização dos corpos
A gordofobia, os padrões de beleza e a crescente popularização das canetas emagrecedoras foram tema da Roda de Conversa do projeto PARTICIPA+, realizada na noite de terça-feira (22). Proposta pelo Coletivo Vai Ter Gorda, a atividade contou com a participação de Maria Luisa Jimenez e Adriana Santos, em um debate sobre saúde, direitos, acessibilidade e os processos sociais que associam magreza à saúde, felicidade e pertencimento.
Ao longo da atividade, as participantes discutiram o conceito de saúde para além da ausência de doenças e problematizaram os estigmas e preconceitos relacionados aos corpos gordos. Também foram abordados os padrões estéticos produzidos e reforçados pela indústria da beleza e o avanço da medicalização da magreza, especialmente com a popularização das canetas emagrecedoras.
Durante a apresentação sobre pesquisas e trajetórias relacionadas à gordofobia, Maria Luisa resgatou sua experiência como mulher gorda e pesquisadora e apresentou reflexões desenvolvidas em sua tese de doutorado, “Lute como uma gorda: gordofobia, resistências e ativismos”, além de pesquisas e artigos realizados em parceria com outras pesquisadoras e pesquisadores.
Maria Luisa destacou que a gordofobia é um fenômeno estrutural e cultural que ultrapassa atitudes individuais e está presente em diferentes espaços da sociedade. Segundo ela, pessoas gordas enfrentam barreiras de acessibilidade, constrangimentos e violações de direitos em ambientes como escola, família, trabalho e serviços de saúde.
A pesquisadora relatou situações vivenciadas no cotidiano, como a dificuldades de utilizar catracas de ônibus, equipamentos e mobiliários hospitalares que não consideram a diversidade dos corpos. Para ela, a inadequação de serviços, protocolos e estruturas muitas vezes é naturalizada e apresentada como uma suposta preocupação com a saúde.

Saúde para além do diagnóstico
No debate sobre o atendimento em saúde, Maria Luisa chamou a atenção para situações em que o diagnóstico de obesidade antecede a escuta da pessoa e a investigação de sua queixa. Destacando que não significa negar a possibilidade de adoecimento de pessoas gordas, mas questionar a redução de diferentes problemas de saúde ao peso corporal.
A pesquisadora também compartilhou experiências de sua atuação na pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, relatando situações em que estudantes de medicina demonstram insegurança diante do atendimento de pessoas gordas. A formação dos profissionais e a necessidade de preparar os serviços para atender diferentes corpos estiveram entre as questões levantadas durante a conversa.
Outro ponto discutido foi a dificuldade de construir práticas de cuidado que considerem as condições concretas de vida das pessoas. Foi destacado na Roda, o custo dos alimentos, as jornadas de trabalho, as responsabilidades familiares, especialmente para mães solo e as condições de acesso a espaços e equipamentos para a prática de atividades físicas.
Canetas emagrecedoras e padrões de beleza
A expansão das canetas emagrecedoras também foi analisada a partir da relação entre mercado, padrões estéticos e desejo de transformação dos corpos. Maria Luisa questionou a associação cada vez mais difundida entre extrema magreza, saúde, sucesso e pertencimento social.
A pesquisadora também chamou atenção para a banalização do acesso e da divulgação desses medicamentos nas redes sociais e em diferentes espaços de consumo. Durante a atividade, foram mencionados relatos sobre o impacto financeiro desse processo, incluindo situações de endividamento entre mulheres de regiões periféricas.
A discussão abordou ainda o conceito de “capitalismo farmacopornográfico”, desenvolvido pelo filósofo Paul B. Preciado, como uma forma de refletir sobre a relação contemporânea entre mercado, tecnologias, medicamentos, hormônios, corpos e desejos.
Para Maria Luisa, o medo de engordar não é uma preocupação individual isolada, mas é construído socialmente desde a infância e atravessado por padrões de classe e raça. Nesse contexto, a magreza passa a ser apresentada como sinônimo de sucesso, enquanto o corpo gordo é associado ao fracasso ou à doença.

Por uma saúde que considere a diversidade dos corpos
Ao longo da Roda de Conversa, a defesa de uma perspectiva antigordofóbica foi relacionada à necessidade de rever práticas, protocolos, estruturas físicas e formas de comunicação nos serviços de saúde. Entre os desafios apontados estão a ampliação da acessibilidade, a produção de dados sobre a população gorda e a qualificação dos profissionais para atender diferentes corpos.
Esta Roda de Conversa foi mediada pela educadora pedagógica do Centro de Educação e Assessoramento Popular (CEAP), Mariana Prates. As Rodas de Conversa do PARTICIPA+ criam espaços para o diálogo sobre saúde, controle social, direitos humanos e outros temas relacionados ao bem-estar social. O PARTICIPA+ é uma realização do Conselho Nacional de Saúde (CNS), executado pelo CEAP, contando com o apoio técnico da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e organização da Comissão Intersetorial de Educação Permanente para o Controle Social no SUS (CIEPCSS/CNS). O projeto também conta com o apoio dos Conselhos Municipais e Estaduais de Saúde e do Fórum DH Saúde.
Foto: Reprodução



